Manali, 23 de agosto de 2011
Depois de achar Old Manali muito Disneylândia dos mochileiros, resolvi me mudar para Vashisht, povoado do outro lado do rio mais tranquilo e mais bonito. Desci até New Manali e encontrei as meninas israelenses na rua, que me deram o nome do hostel onde elas se hospedaram. Não era um lugar muito fácil de encontrar nem muito limpo, mas deixei minhas coisas lá e saí para conhecer a cidade, que se resume a praticamente uma rua principal com comércio e restaurantes e um emaranhado de casas subindo a montanha. As pessoas são mais tranquilas por aqui, abordam muito menos os turistas que em Old Manali. Vi bastantes velhinhas que se vestem como ciganas: vestidos grossos, lenços amarrados na cabeça, muitas jóias.
No fim da rua principal há um pequeno tempo hindu e um complexo com banhos de águas termais. Ali mulheres e homens se lavam em lugares separados, e há também uma piscina mista. A piscina é bem quente mas não me animou a entrar porque não há um sistema de troca de água, eles a enchem de madrugada e mesma água fica ali até a noite, junto com os restos dos banhos de todo mundo. Tem também várias torneiras fora do templo onde as mulheres lavam roupas.
Seguindo pelo emaranhado de vielas que se se forma depois do templo chego a uma trilha que leva à cachoeira. A trilha começa pavimentada e é bem fácil a princípio. No caminho encontro vários locais carregando grandes cestos lotados de uma espécie de capim que depois é colocado para secar no teto das casas. Suponho que seja alimentação para os animais durante o inverno, quando a cidade fica coberta de neve. Eles carregam o cesto nas costas amarrado com uma corda que é presa na testa, e andam com o corpo inclinado à frente. São ágeis, fazem parecer que aquilo não pesa nada. Encontro também várias vacas no caminho, que é todo pontuado pela merda delas (assim como todas as vielas e escadas da cidade).
Quando chego à cachoeira é um impacto. Nunca estive tão perto de uma tão grande como esta. Não há lugar para tomar banho, a correnteza é forte. Subo em uma pedra bem em frente à queda e a observo. É como se chovesse bem fininho o tempo todo por ali. Encontro uma menina de traços orientais que está sobre a pedra mais próxima da cachoeira tocando um kulelê e cantando baixinho, só ela e a cascata. Depois subo uma outra trilha marcada por bandeirolas vermelhas vermelhas até uma rocha enorme de onde se vê o vale. Adrenalina alta pois não tinha muita gente por ali, era fim da tarde e o caminho não era fácil. Na descida passo por um templo budista que fica aos pés da cachoeira, muito bonito. Um pátio de grama coroado por uma grande árvore. Um velhinho nas roupas ciganas típicas daqui passa por ali tomando conta do local. Foi uma bela tarde passada sozinha, a primeira desta viagem.
No fim do dia fui encontrar os rapazes italianos no Restaurante Tibetano, um lugar que é do jeito que eu sonho para o bar que eu gostaria de ter no Brasil. Um casal de refugiados do Tibete é proprietário e eles recebem os clientes na sala de casa, mobiliada com sofás e colchões. Passei horas ali. Me senti em casa pois o lugar estava cheio de japoneses jogando cartas e xadrez. Pareciam meus amigos de São Paulo, do mesmo jeito jogados no sofá e tapete da minha casa. Para completar a comida da dona do lugar era incrível. Ela faz umas panquecas que são altas como um bolo de frigideira. São servidas com mel e limão, e há também uma versão com uma camada de banana sobre a massa. Como também um chop suey em que o lámen frito vai no fundo de uma cumbuca, coberto com vegetais e ovo por cima. Quebro o macarrão com o hashis misturando os vegetais recém-cozidos e assim a massa cozinha com o calor deles.
Enquanto Koki fica na cozinha, seu marido passa o dia conversando com os clientes e fumando charas em um chilum, uma espécie de cachimbo de cerâmica em forma de cone. O charas é muito comum em Manali, há pés de mais de um metro de altura nas ruas da cidade e em muitos restaurantes e cafés faz parte do política de boas vindas oferecer aos clientes uma (ou várias) rodadas de chilum durante o dia todo. É fácil ficar chapado 24h por dia, e parece que os colegas italianos não querem outra coisa além disso, pois não deixam o Restaurante Tibetano por mais de 2 horas a cada dia.