February 15, 2012 at 11:04pm
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Manali, 23 de agosto de 2011
Depois de achar Old Manali muito Disneylândia dos mochileiros, resolvi me mudar para Vashisht, povoado do outro lado do rio mais tranquilo e mais bonito. Desci até New Manali e encontrei as meninas israelenses na rua, que me deram o nome do hostel onde elas se hospedaram. Não era um lugar muito fácil de encontrar nem muito limpo, mas deixei minhas coisas lá e saí para conhecer a cidade, que se resume a praticamente uma rua principal com comércio e restaurantes e um emaranhado de casas subindo a montanha. As pessoas são mais tranquilas por aqui, abordam muito menos os turistas que em Old Manali. Vi bastantes velhinhas que se vestem como ciganas: vestidos grossos, lenços amarrados na cabeça, muitas jóias.
No fim da rua principal há um pequeno tempo hindu e um complexo com banhos de águas termais. Ali mulheres e homens se lavam em lugares separados, e há também uma piscina mista. A piscina é bem quente mas não me animou a entrar porque não há um sistema de troca de água, eles a enchem de madrugada e mesma água fica ali até a noite, junto com os restos dos banhos de todo mundo. Tem também várias torneiras fora do templo onde as mulheres lavam roupas.
Seguindo pelo emaranhado de vielas que se se forma depois do templo chego a uma trilha que leva à cachoeira. A trilha começa pavimentada e é bem fácil a princípio. No caminho encontro vários locais carregando grandes cestos lotados de uma espécie de capim que depois é colocado para secar no teto das casas. Suponho que seja alimentação para os animais durante o inverno, quando a cidade fica coberta de neve. Eles carregam o cesto nas costas amarrado com uma corda que é presa na testa, e andam com o corpo inclinado à frente. São ágeis, fazem parecer que aquilo não pesa nada. Encontro também várias vacas no caminho, que é todo pontuado pela merda delas (assim como todas as vielas e escadas da cidade).
Quando chego à cachoeira é um impacto. Nunca estive tão perto de uma tão grande como esta. Não há lugar para tomar banho, a correnteza é forte. Subo em uma pedra bem em frente à queda e a observo. É como se chovesse bem fininho o tempo todo por ali. Encontro uma menina de traços orientais que está sobre a pedra mais próxima da cachoeira tocando um kulelê e cantando baixinho, só ela e a cascata. Depois subo uma outra trilha marcada por bandeirolas vermelhas vermelhas até uma rocha enorme de onde se vê o vale. Adrenalina alta pois não tinha muita gente por ali, era fim da tarde e o caminho não era fácil. Na descida passo por um templo budista que fica aos pés da cachoeira, muito bonito. Um pátio de grama coroado por uma grande árvore. Um velhinho nas roupas ciganas típicas daqui passa por ali tomando conta do local. Foi uma bela tarde passada sozinha, a primeira desta viagem.
No fim do dia fui encontrar os rapazes italianos no Restaurante Tibetano, um lugar que é do jeito que eu sonho para o bar que eu gostaria de ter no Brasil. Um casal de refugiados do Tibete é proprietário e eles recebem os clientes na sala de casa, mobiliada com sofás e colchões. Passei horas ali. Me senti em casa pois o lugar estava cheio de japoneses jogando cartas e xadrez. Pareciam meus amigos de São Paulo, do mesmo jeito jogados no sofá e tapete da minha casa. Para completar a comida da dona do lugar era incrível. Ela faz umas panquecas que são altas como um bolo de frigideira. São servidas com mel e limão, e há também uma versão com uma camada de banana sobre a massa. Como também um chop suey em que o lámen frito vai no fundo de uma cumbuca, coberto com vegetais e ovo por cima. Quebro o macarrão com o hashis misturando os vegetais recém-cozidos e assim a massa cozinha com o calor deles.
Enquanto Koki fica na cozinha, seu marido passa o dia conversando com os clientes e fumando charas em um chilum, uma espécie de cachimbo de cerâmica em forma de cone. O charas é muito comum em Manali, há pés de mais de um metro de altura nas ruas da cidade e em muitos restaurantes e cafés faz parte do política de boas vindas oferecer aos clientes uma (ou várias) rodadas de chilum durante o dia todo. É fácil ficar chapado 24h por dia, e parece que os colegas italianos não querem outra coisa além disso, pois não deixam o Restaurante Tibetano por mais de 2 horas a cada dia.
Em trânsito, 22 de agosto de 2011
Deixei Agra pela manhã e peguei o trem para Dehli. Encontrar aquela família foi uma das experiências mais legais que tive até agora por aqui. Chegando em Dehli, fui direto para a rua dos mochileiros, a Main Bazaar, perto da estação de trem. Depois de um pouco de internet e alguma comida, embarquei no ônibus para Manali em companhia de um inglês bem hipongo que falava um pouco de hindu e tinha um monte de histórias pra contar. Compartilhamos o fone de ouvido e ele foi bancando o dj durante muitas das 14h de viagem que eu mal vi passar.
Nas paradas conversei com outros mochileiros do ônibus: dois ragazzi italiani de Roma, um americano chapadão, duas garotas israelenses. Chegamos em Manali já nos sentido amigos, mas o grupo foi se instalar em Vashisht enquanto eu e o inglês fomos para Old Manali. Acabei dividindo o quarto com ele, deixando bem claro que cada um deveria ficar do seu lado da cama. A guest house era ótima, chama-se Veer, a encontrei pelas recomendações do Lonely Planet. O quarto é bonito, limpo, com varanda e uma bela vista. Depois de viajar por tanto tempo, fomos tomar um bom café da manhã e descançar um pouco.
Manali não tem nada de muito especial, está na montanha à beira de um rio, tem bastante influência budista tibetana e um importante templo hindu, dedicado a Manu, o deus que teria criado toda a humanidade. (Que erro, diriam alguns).
A cidade é entopida de mochileiros, especialmente israelenses, cada um contando sua própria aventura ‘incrível’. Muita gente perdida, vê-se sem dificuldades. Não tive muita vontade de ficar por aí medindo experiências, então fui dormir cedo enquanto a maioria da cidade se reunia no Moon Café, assitindo à tentativa de um concerto de rock-and-cítara, liderado por um senhor chileno meio esquisitão.
Agra, 21 de agosto de 2011
Partimos para Agra cedíssimo na manhã para pegar o trem das 5h30. Fomos de assento marcado mas sem ar condicionado, e funcionou muito bem. Na volta vim sozinha sem assento marcado, e acabou sendo melhor ainda. Fui andando pelos vagões até encontrar um lugar perto de alguém amigável e acabei dando bastante sorte. Sentei com uma família hindu: mãe, pai, um menino de 10 anos e uma menina de 12. Fui conversando durante as 4 horas de viagem até Dehli, um pouco com cada membro da família. As crianças desenharam no meu diário e a mãe me falou bastante sobre a cultura deles: as festas, as comidas, os deuses, as roupas e costumes.
Em Agra logo que chegamos pegamos um Rickshaw para o hotel com um senhor bastante simpático que carregava consigo um caderninho cheio de agradecimentos dos turistas que passearam com ele. Nos ofereceu ficar o dia todo conosco, nos levando a todos os pontos turísticos da cidade por 500 rúpias. Acabamos aceitando pela praticidade e pelas recomendações. Foi realmente bastante prático e útil, mas caro. No dia seguinte vi que era possível pegar cada taxi separadamente e gastar menos, mas de qualquer forma, ele nos levou em alguns lugares que não iríamos sem a orientação dele. A verdade é que Agra é uma armadilha para turistas, ir para lá significa gastar muito dinheiro de qualquer maneira. Só a entrada para o Forte mais o Taj Mahal são 1000 rúpias, o suficiente para se hospedar confortavelmente por 5 dias na maioria das cidades do norte do país.
Felizmente a companhia do Josh foi ótima, então o rombo no bolso não doeu tanto assim. Aproveitamos bastante o Taj, ficamos horas lá vendo o sol se pôr e observando como a luz muda refletindo nele. Fomos abordados por dezenas de indianos que nos pediam para nos fotografar. Descobrimos que o dia seguinte era aniversário de Krishna e haveria festividades em todo o país. Por isso naquela noite em Agra havia uma grande festa de rua que me fez lembrar as quermeces do Brasil. Bem perto do nosso hotel vimos barracas de comidas e jogos, música em alto falantes, parque de diversões, muitas luzinhas, tudo que eu adoro. Uma pena que não conseguimos andar na roda gigante pois o parque fechou cedo. Mas demos várias voltas pela cidade em busca de cerveja, e embora a gente não entendesse bem o que todos estavam comemorando ali, nos sentimos um pouco dentro da festa.
December 26, 2011 at 3:56pm
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New Dehli, 20 de agosto de 2011
Estou começando a me acostumar com Dehli. Pela primeira vez entendi como funciona o metrô, e começo a conseguir andar na rua confortavelemente. Tomou mais tempo do que Marrakesh. Está me parecendo uma cidade interessante, mas daquelas que exige muito de você para te dar o melhor dela. Precisaria de várias semanas para realmente circular por ela e entendê-la com naturalidade. Hoje saí apenas com o Josh, garoto inglês de 19 anos que está terminando aqui na Índia sua viagem pelo sudeste asiático. Os outros mochileiros partiram, poucos dão muito tempo à Dehli.
Sofremos para comprar nosso bilhete de trem para Agra (difícil encontrar o escritório de venda para turistas na estação, há muitos espertalhões tentando te levar para outro lugar), sofremos para comprar minha passagem de ônibus (estou indo para Manali na segunda-feira). Pelo menos encontramos a a rua dos mochileiros em Dehli, a Main Bazaar próxima à estação de trem. É ali que eu vou me hospedar quando voltar para cá no final da viagem, muito mais fácil de se movimentar do que onde estou agora. O Josh deu a dica de um lugar que chama Smile Inn, onde encontrarei colegas mochileiros e o preço é bom. O hostel onde estou hospedada é um pouco caro, mas foi bom encontrar as pessoas lá. Éramos um bando de perdidos, mas todos com bom coração e acabamos nos unindo.
Amanhã estou indo para Agra com o Josh, depois ele vai para Jaipur e eu para Manali. Hoje acabamos não vendo nenhuma atração turística na cidade mas conhecemos um pouco de New Dehli de verdade. Encontramos nosso restaurante favorito até agora (que na verdade é uma rede, chama Haldiram’s e vende comida típica de todas as partes da Índia, além de doces maravilhosos). Dá pra provar de tudo e os preços são honestos. Meu favorito até agora é o puri, um tipo de pastel inflado que vem com o recheio ao lado em vez de dentro. Uma delícia.
December 24, 2011 at 8:34am
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New Dehli, 19 de agosto de 2011
Chegar à Dehli foi como chegar à Manaus: 3 horas da manhã, 27 graus. O taxi que deveria me levar ao albergue não estava me esperando, e quando chegou não trazia o motorista que deveria me levar, não me pergunte o porquê. Acabei esperando uma hora e meia até que o gerente do hostel decidisse declarar que meu motorista não viria mesmo e pedisse que aquele que estava comigo me trouxesse. E ai o pneu do carro furou. Eu quase não acreditei. Acabei chegando à minha cama lá pelas 5h30 da manhã. O hostel fica longe do centro, chegar à noite não foi uma boa iniciação à Dehli, mas isso foi compensado pelo encontro com simpáticos mochileiros no café da manhã. Não sou a única um pouco assustada com a cidade, então saímos juntos para passear durante o dia. Dehli é definitivamente mais suja, caótica e gasta que Marrakesh, minha primeira experiência fora do mundo ocidental, à dois meses atrás. Apesar disso, aqui as pessoas são mais tranquilas, como eu imaginava.
Os homens olham muito para as mulheres ocidentais, mas não passa disso. Não gritam como os marroquinos. Crianças na rua às vezes te atacam pedindo esmola, te pegam, te puxam a roupa, te seguem por 300 metros e depois se vão. Eu quase não consegui conversar com os colegas mochileiros enquanto estava na rua, só caminhar e prestar um pouco de atenção no entorno já me absorve inteira, tamanha é a quantidade de informação.
December 22, 2011 at 7:41pm
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Em trânsito, 18 de agosto de 2011
Supreendentemente a viagem começou boa. O trecho Roma-Moscou foi operado pela Alitália e não pela russa Aeroflot, mundialmente famosa pelos péssimos serviços e detentora de meus bilhetes de ida e volta. O avião italiano parecia um pouco velho-cacareco mas o serviço era bom, um almoço decente com direito a vinho branco. Começaram a aparecer as figuras diferentes: uma senhora no vôo que tinha todos os dentes de baixo feitos de ouro (parecia russa, bem velhinha e ruiva), um grupo de indianas vestidas de sari no aeroporto em Moscou. Reparei como elas têm mesmo um cheiro diferente, entre sândalo e suor, meio agridoce. É um cheio que eu gosto, me lembra um pouco o Angelo, meu ex-namorado japonês em quem eu enfiava o meu nariz no sovaco suado sem o menor pudor.
Moscou é muito bela vista de cima. Banhada por um grande rio – do avião me lembrou o Negro ou o Amazonas – , com muitos braços que formam ilhas. Não é um rio retilíneo como os europeus. Do aeroporto, o dia era branco e úmido como se pode esperar da Rússia. O vôo saiu com um pouco de atraso e na fila já começei a encontrar os costumes indianos. A senhora atrás de mim ia sempre me tocando cada vez que a fila andava. Melhor me acostumar.
December 20, 2011 at 9:42pm
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Milão, 17 de agosto de 2011
Resolvi publicar aqui meu diário da viagem à Índia, que escrevi a mão e comecei a passar a limpo no computador durante essas ‘férias’ entre o natal e ano novo. Pode ser ser que eu me arrependa na metade, pois ainda não li o material inteiro, mas gostei das três primeiras páginas revisadas. Acho que tem ritmo e um pouco de cor, e que por isso valia a publicação. Vamos ver se a qualidade se mantém pelos dois meses que a viagem durou.
Resolvi fazer um diário bem corriqueiro da minha viagem à Índia. Por bem vai acabar sendo meu melhor registro da viagem, pois não estou levando câmera nenhuma além do celular, nem tenho a pretensão de registrar tudo em fotos. Devo partir daqui cerca de 3 horas, tenho uma longa viagem pela frente.
Da estação central de trem de Milão tomo um ônibus para o aeroporto, vôo para Roma, depois para Moscou, depois para Dehli. Claro que estou nervosa. Há quem diga que sou louca por viajar para a Índia sozinha, sem nenhum planejamento além das três primeiras noites reservadas em um hostel em Dehli e o Loneny Planet na mochila. Tenho também alguns contatos que posso procurar quando estiver lá (amigos de amigos de amigos) e muita informação na cabeça, graças aos papos que tive com toda e qualquer pessoa minimamente próxima a mim que já foi à Índia.
Acabei de ver um filme italiano que a Mali me recomendou, Tutta la vita davanti (Toda a vida pela frente). É sobre a nossa geração, retratada no contexto da Itália atual, sem trabalho nem esperança. A menina que estudou filosofia e acabou indo trabalhar no callcenter, entre outras desgraças dos nossos dias. É um filme leve, engraçado, mas eu chorei e bastante.
É claro que junto com esse choro tem o nervosismo da minha partida, a solidão que sinto por ir sem companhia, intensificada pelos desencontros com o Manuel, que se encontra num momento muito ele e nada eu e fez o favor de me comunicar isso na véspera da viagem. Claro que eu quero saber como estão as coisas com ele, e acho melhor saber cedo do que tarde, mas ouvir o que eu ouvi fez me sentir ainda mais só.
November 30, 2011 at 8:13pm
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Por sobre o ombro
Fui ao supermercado comprar frutas porque acordei com vontade de salada de frutas, e voltei com uma caixa cheia delas sobre o ombro direito. Um rapaz passou por mim numa bicicleta e sorriu ao me ver carregando a caixa. Deve ter ficado supreso com o contraste das frutas grandes e coloridas sobre a moça magrela que carregava tudo.
Carreguei as frutas do mesmo jeito que meu pai fazia todos os sábados pela manhã. Ele ia à verdureira e voltava com uma saco gigante sobre o ombro direito. Eu acordava e o via pela janela chegando em casa com o saco de frutas, sempre à mesma hora. Ele tinha sua própria técnica para preencher o saco: no fundo as maçãs, que são duras. Depois, dois mamões verdes bem grandes que minha mãe usava na vitamina dele no café da manhã. Depois um melão, daqueles amarelos por dentro e por fora. Daí por cima as bananas, um cacho grande com mais de uma dúzia.
De melão e mamão eu nunca gostei. Já pelas bananas peguei gosto quando era criança e não as deixei nunca. Na minha casa sempre tem um cacho de bananas prata meio verdes, no ponto em que o gosto delas ainda é um pouco ácido e ainda não tem aquele doce de fruta madura.
No saco de frutas de meu pai tinha manga também, porque minha mãe gostava muito. Quando ele chegava em casa ela logo sacava uma manga de dentro do saco e a cortava em cubinhos. Comia espetando a ponta da faca em cada pedaço, e dali para a boca até sobrar só o caroço. Se lambuzava, chupava o caroço mesmo, não tinha pudor a minha mãe.
Teve uma época em que ela encanou em fazer suco de tudo, não só de frutas, mas de verduras também. Era suco de cenoura, beterraba e até de agrião. Juntava tudo na centrífuga e saia aquele copão de suco marrom, mistura de todas as cores. Um suco grosso e amargo que meu pai tomava em uma golada só. Eu reclamava e tomava só um pouquinho. Preferia suco de laranja, sem mais nada. Suco de laranja é o suco perfeito, não há como melhorá-lo, não adianta acrescentar nada.
Na arrumação do saco de frutas de meu pai as laranjas vinham em cima do melão. Sempre laranja lima, que faz o suco mais gostoso. Laranja pêra é doce demais. Eu e minha mãe gostamos de frutas azedas. Ela diz que mulher que gosta de azedo vai ter filha mulher. Acho que comigo vai ser assim, se eu engravidar um dia. Acima das laranjas vinham as frutas miúdas. De vez em quando uns kiwis ou ameixas, que a gente gostava muito. Se por acaso meu pai comprasse salada também, vinha um alface no topo de tudo, como que decorando o saco gigante de frutas.
Quando era época de uva ele ainda dava um jeito de carregar uma caixa com elas também, daquelas pequenas que você tira a casca apertando a uva na ponta dos lábios, e a engole de uma vez sem mastigar. Meu pai comia a caixa de uvas todinha praticamente sozinho, depois ficavam aquelas pilhas de casca de uva num prato em cima da mesa do jantar. Eu tentava acompanhá-lo mas não conseguia comer muitas uvas assim. Me deixava agoniada comer sem mastigar. Então eram três, quatro ou cinco uvas inteiras na barriga e eu parava por ali, com um pouco com medo de indigestão.
November 2, 2011 at 12:43pm
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Coragem
Texto retirado do meu diário de viagem, extremamente amargurado mas, na minha opinião, bem escrito. Tem uma coragem grande nele, e serve também para lembrar que as dores podem ser horrendas e os amores podem ser imensos, mas passam.
Tem dia que acordo querendo tomar a pílula brilho eterno de uma mente sem lembranças. Quatro meses apagados, nem é tanto assim. Fácil de substituir por dias de trabalho e diversão moderada, foram tantos tão iguais em 2010.. é só pegar um punhado daquelas lembranças difusas e duplicar um pouco mais, a mente é boa em completar espaços em branco.
Ou então aumentar um pouco a lembrança da minha viagem, colocar uns dias a mais em cada casa que eu fiquei, cada lugar que eu passei. Não é difícil esticar as lembranças, uma hora pode virar duas, o tempo é uma ilusão e a ilusão está nas mãos do mágico que faz o truque.
O importante é que você fique lá em 2010, que não tenha voltado nem para o Brasil, nem para São Paulo, não tenha passado na minha casa, não tenha me trazido presente. Que você não tenha entrado na minha casa nem morado lá.
Não vai ser difícil apagar essa lembrança porque nem se quer suas coisas você trouxe, sua mala esteve sempre ali aberta para me avisar que a qualquer momento você podia partir. A gente sabe que tudo aquilo só aconteceu porque eu estava de saída, você nunca assumiria o ônus de viver junto, era constante a ameaça de me deixar. Vou pra Manaus, vou dar a volta ao mundo, meu projeto com esse, meu projeto com aquele, nunca comigo. Olho para trás e vejo quanto fui forte, nenhuma dessas ameaças me assustou. Eu me fiava em mim mesma e não em você. A porta esteve sempre aberta como minha casa sempre foi e no final parece até que você sofreu um pouquinho quando eu parti.
Pensando bem, não apague nada. Que venham as próximas lembranças.
October 25, 2011 at 11:02pm
Notes
Um animal que vive dentro do meu coração. Não precisa de muita comida, é claro. Um urso hibernando que pouco a pouco acorda, dá uma volta em torno de si mesmo e tenta voltar a dormir. A maioria do tempo observa a paisagem. Nada até agora o fez sair da caverna que é meu coração. Não tem pressa de caçar.
Extraído do meu diário de viagem, quando estava na Itália, em julho deste ano.
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